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Tímido, excelente em matemática e sonho de ser policial: quem era o menino de 11 anos morto em Planalto

Postado em 29/05/2020 por

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*Fonte imagem : Tímido, excelente em matemática e sonho de ser policial: quem era o menino de 11 anos morto em Planalto*


Rádio Gaúcha

Na turma A do 6º ano, Rafael Mateus Winques, 11 anos, sentava na primeira fila. Tinha vergonha de ler textos em voz alta, mas era excelente em matemática. Desde que retornou de Bento Gonçalves, na Serra, há três anos, estudava no Instituto Estadual de Educação Pedro Vitório, em Planalto, no Norte. Era dedicado e ao mesmo tempo um menino reservado. Falava baixo. Envergonhado, raramente pedia a palavra em sala de aula. A trégua para a timidez vinha na hora do recreio, quando enfim podia jogar futebol no campinho da escola.

Desaparecido desde 15 de maio, Rafael foi encontrado morto na segunda-feira (25) em uma casa ao lado da residência onde vivia. A mãe Alexandra Dougokenski, 32 anos, confessou que exagerou na dosagem de medicamentos do menino. Na quarta-feira, o Instituto-Geral de Perícias (IGP) confirmou que o filho dela morreu asfixiado.

Com os colegas mais próximos, o menino tinha um grupo chamado Caçadores de Lendas – a inspiração vinha de vídeos do Youtube. Ele e outros seis amigos gostavam de criar histórias sobre locais abandonados de Planalto. Reuniam-se para piqueniques na praça da cidade e faziam dever de casa juntos, por vídeo chamada. Uma das integrantes desse grupo, Isis Natali de Oliveira, 10 anos, conta que o menino só se soltava mesmo com o melhor amigo. Ainda assim, era afável e prestativo, especialmente para ajudar nas lições de matemática.

Na última vez que viu o colega, durante uma chamada de vídeo em uma aula de matemática, Rafael mantinha a câmera desligada por timidez. A aula era uma lição sobre potencialização, conteúdo que Rafael logo dominou:

— Ele entendia muito rápido, copiava a matéria rápido e vinha me ajudar no que eu não entendia. Ele caprichava bastante nos cadernos — recorda a menina.

Isis garante que o menino era um bom confidente, embora ele mesmo nunca falasse muito de si:

— Ele parecia que não confiava muito nas pessoas, só na mãe dele.

Se para própria polícia ainda não há motivação clara para a morte do garoto, para a menina de 10 anos, a história do amigo que viu contada na televisão não tem fundamento. Quando Rafael desapareceu, os Caçadores de Lendas foram, de bicicleta, bater de casa em casa em busca de pistas do colega.

— Não caiu a ficha. Para mim parece que quando as aulas voltarem, vou ver o Rafael na escola de novo. E tudo vai estar normal. Mesmo que a gente esteja muito triste, nosso consolo é que ele está num lugar melhor — diz a criança.

Mãe de Isis, a professora Içara Natali, 35 anos, tenta trabalhar o luto com a filha. Na terça-feira, foram juntas se despedir da criança no velório de Rafael. No dia em que souberam da morte do menino, Içara pediu para a menina falar em voz alta tudo que gostaria de dizer para o amigo.

Rafael nunca precisou ser chamado na direção da escola. A diretora da instituição, Maria Cristina Rossi, afirma que o retorno ao ensino presencial dos 12 alunos da turma A do 6º ano será difícil. A Secretaria Municipal de Saúde de Planalto já ofereceu apoio psicológico para acompanhar os demais estudantes.

— Entrar nessa sala de aula está sendo muito difícil para mim. Agora imagina como vai ser para as crianças. Vai ser um retorno dolorido. A mãe sempre trazia ele para a escola limpo e cheiroso, não levantava suspeita nenhuma — diz a diretora.

O menino tímido sonhava ser policial. Na Rua José Sartori, onde vivia com a mãe e o irmão em uma casa alugada de tijolo à vista — no mesmo terreno e idêntica à casa ao lado, onde foi encontrado morto — Rafael ficava à vontade para jogar bola. Alexandra sustentava Rafael e o irmão, de 17 anos, com a pensão que recebia do primeiro marido. Eventualmente, recebia as visitas do namorado, que vive em Ametista do Sul.

Em casa, Rafael gostava de se atirar na rede da varanda e dava atenção especial a sua galinha garnisé Felipa. O desafio do menino era não deixar que o gato Lucky, grande e gorducho, tirasse o sossego da ave. Os dois animais de estimação ficavam no pátio da avó, Isailde Batista, 58 anos, bem em frente à residência de Alexandra. Na casa da avó, Rafael tinha copa franca. Entrava e saia sem avisar e pregava peças nela: gostava de brincar de se esconder:

— Até hoje eu acho que ele ainda vai aparecer e me dar um susto. Que tudo isso é só uma brincadeira de esconde-esconde.

Isailde é mãe três filhos, Alexandra é sua filha mais velha e a única que lhe deu netos. A mulher franzina, treme falando de Rafael. Diz que não quer aceitar. Deita na cama, mas não consegue dormir. Não fez contato com a filha desde que ela confessou o crime e afirma não querer mais falar com ela:

— Não entendo como ela fez isso, era uma leoa com os filhos. Mataria para protegê-los.

Qualquer eventual molecagem de Rafael ia ao limite das ordens da mãe. O menino era obediente. O gato e a galinha não entravam na casa do garoto por ordem de Alessandra. Ele não saia de casa sem consulta-la. A última vez que a avó diz ter visto o neto foi no domingo do Dia das Mães. Fizeram um churrasco na frente de casa.

— Naquele dia, ele me deu um abraço forte e disse que me amava muito.

O tio Alberto Cagol, 18 anos, que mora com Isailde na frente da casa de Rafael, conta que a irmã, mãe do menino, não participou efetivamente das buscas e não chorou em nenhum momento. Na fala dele e de Isailde, o tom de revolta se mistura com a sensação de desgosto:

— Teve um dia que estávamos todos mobilizados e ela na frente de casa, tomando chimarrão. Ela não era assim, mas desde que ele desapareceu, parecia fria. Com o passar dos dias, passei a desconfiar até da minha sombra. Se ela não quisesse mais ele, que tivesse dado para nós. Eu dizia para ele: mana, não sei mais onde procurar, não sei mais para onde ir. E o tempo todo ela sabia que estava ali do lado. 

Integrante do Conselho Tutelar de Planalto, Denise Vojniek foi uma das pessoas que se mobilizou nas buscas pelo menino a pedido de Alexandra. Segundo ela, depois do desfecho trágico do desaparecimento do garoto, não consegue mais confiar em ninguém:

— Ela nos dizia que dormia na sala esperando ele voltar, que via as mãozinhas dele tocando na fechadura da porta, retornando. Saber de toda verdade nos derrubou, nos tirou o chão. Não sei se um dia entenderemos os motivos dessa mãe ou se vamos morrer com essa dúvida.

Rádio Gaúcha

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